Esta expansão não revela apenas criatividade comercial, mostra sobretudo o quanto o nosso modelo económico depende do aumento contínuo das vendas e do consumo. E é precisamente no momento em que a pressão para comprar atinge o seu auge que vale a pena fazer uma pausa para refletir sobre o impacto deste modelo económico, social e ambiental.
O consumo não cresce por acaso: é induzido. Vivemos expostos a forças muito eficazes a criar necessidades artificiais, a expandir permanentemente a oferta, a mercantilizar quase todos os aspetos da vida e a tornar o “barato” tão acessível que parece irracional não comprar. O resultado são armários cheios de objetos raramente usados e, paradoxalmente, a sensação persistente de que falta sempre qualquer coisa. E quanto maior a janela de “promoções”, maior a pressão para consumir. Eis que emerge uma pergunta desconfortável mas necessária: faz sentido permitir publicidade que incentiva um consumo irresponsável, sabendo que este contribui diretamente para emissões de carbono e para o desperdício que tanto precisamos combater?

Em vez de responsabilizarmos apenas os consumidores, talvez devêssemos questionar o sistema que incentiva o excesso e empurra os cidadãos para um ciclo constante de compra, substituição e descarte. Será sensato continuar a dar carta branca a um modelo que alimenta este ritmo insustentável?
Novembro é aquele mês marcado pelas castanhas assadas, pelo Movember — o mês em que os bigodes lembram a importância da saúde masculina — e, claro, pela omnipresente Black Friday. O que começou como um único dia de grandes descontos tornou-se rapidamente num fim de semana prolongado com a Cyber Monday e, agora, numa espécie de maratona comercial que muitos retalhistas já chamam Black November. Um mês inteiro de campanhas, estímulos e urgências artificiais.
É aqui que a transição para uma economia circular se apresenta como alternativa credível ao modelo linear ainda tão dominante. Trata-se de dissociar o crescimento económico do consumo de materiais, ou seja, da extração incessante de recursos naturais. Uma economia que cresce dentro dos limites do planeta é possível, com modelos de negócio circulares, produtos duráveis e reparáveis, sistemas de reutilização em vez de single use, incentivos à eficiência e políticas públicas que favoreçam a circularidade e penalizem o desperdício.
A Black Friday pode ser uma oportunidade — não de comprar mais, mas de repensar melhor.
A questão já não é apenas: “devemos comprar menos?”. A pergunta central é: que economia queremos alimentar? Uma economia que recompensa a substituição constante e o consumo impulsivo? Ou uma economia que valoriza durabilidade, eficiência, partilha e inovação realmente útil?
Para quem quiser, ainda assim, acrescentar algo à lista — mas sem peso na consciência — recomendo duas leituras: Surconsommation – On arrête tout et on réfléchit !, de Samuel Sauvage, e Abrandar ou Morrer, de Timothée Parrique. Dois livros que oferecem ferramentas intelectuais e práticas para repensar o futuro e imaginar uma economia que cresce em qualidade, resiliência, bem-estar e regeneração, em vez de crescer em toneladas de materiais extraídos. Nesta “Black November”, talvez o gesto mais transformador não seja aproveitar um desconto, mas parar por um instante e perguntar: preciso mesmo disto? Ou será que posso
prolongar a vida daquilo que já tenho em casa?
Ana Matos Almeida
Presidente da Circular Economy Portugal



